o processo de envelhecimento é decisamente difícil de aceitar. não estou a falar somente do nosso envelhecimento, mas os dos outros. vivemos em uma sociedade performática, acelerada e, principalmente, de pouca memória. mas essa mesma memória é também rígida e, por vezes, seletiva. temos dificuldade de abandonar a imagem que tínhamos dos nossos pais quando estes eram grandes, auto-suficientes, super-heróis. conseguir ver a fragilidade que pode trazer o efeito dos anos é um exercício mental muito grande. um simples episódio como retirar dinheiro no caixa automático, pode ser revelador. hoje é um dia chuvoso aqui em Braga, e realmente não sinto a menor vontade de sair de casa. sendo assim, dei meu cartão do banco à minha mãe para que ela pudesse retirar dinheiro e comprar algumas coisas para casa. menos de 5 minutos depois ela retorna à casa dizendo que o mercado estava fechado e, por isso, não teve necessidade em levantar o dinheiro. natural, não? se não fosse pelo ar constrangido do seu rosto. passadas algumas horas, perguntei se ela não queria descer para comprar as tais coisas. ela insistiu para que eu fosse junto. chovia, eu de pijamas, na minha individualidade e egoísmo, falei: mas mãe, é aqui embaixo! vai lá! foi quando ela disse: eu não falei a verdade, na realidade não consegui retirar foi o dinheiro. fiquei um momento incrédula, como é possível! tinha dito exatamente, passo-a-passo, o que era para fazer. ela ali, me dizendo que havia tentado duas vezes e nada, a tela não mudava. impossível! dizia. acabei descendo, ainda transtornada. como pode, minha mãe, que sempre fez tudo sozinha, não conseguir sacar dinheiro, ainda se estivesse escrito em japonês! descemos. entreguei o cartão à ela. tentou 3 posições diferentes antes de acertar. apareceu a tela, como havia dito, para colocar a senha: e ela... e ela... começou a apertar no vidro e satisfeita disse: não falei! agora não sai daqui! mãeeeeee, please, tá vendo este teclado aqui! aperta os números ali!!!!